Relatividade Geral do Pensamento

Reúne pequenos textos e ensaios relacionados com uma forma diferente e particular de pensar o mundo. Buscando a isenção de facciosismos e dogmatismos, e tentando sempre observar a questões por diferentes ângulos.

segunda-feira, julho 24, 2006

A mão invisível...

Nada de novo no ocorre no cenário artístico e musical, tanto nacional quanto internacional, desde os anos o início dos anos 90. Tudo que está aí hoje nada mais é que repetição de tudo que já foi visto, nada que empolgue pela novidade. O nosso cenário musical parece estar passando por uma espécie de entre-safra, tudo está tão chato e repetitivo.

O que parece ser algo paradoxal se analisarmos que atualmente é muito mais fácil divulgar material alternativo graças à internet e sites de relacionamento como o orkut. Mesmo assim, nada de novo surge, aparentemente há uma crise criativa dominando o consciente coletivo.

Dizem que a criatividade florece melhor em ambientes onde há liberdade de expressão, as pessoas livres são mais criativas. Contudo, ou isso não é verdade ou de fato não somos tão livres quanto imaginamos ser. Podemos estar livres do dogmatismo religioso e da censura do Estado, mas aparentemente não estamos livres do arquétipo, estamos presos a uma série de convenções sociais que moldam desde nosso comportamento ao nosso modo de pensar. Aquele que desafia a estas conveções corre risco de ser rotulado pejorativamente e ter dificuldades de integrar-se ao meio social que dita a quem deve brilhar a luz do sol.

As pessoas são totalmente desestimuladas a ousarem, a quebrarem as regras do arquétipo, desse jeito não podem ser de fato criativas e inovadoras. O arquétipo diz do que você deve gostar, qual opinião deve ter diante dos fatos, como deve comportar-se diante sdas situações. É uma mão invisível que amarra nossas mãos e tapa nossa boca, sem que possamos ter a chance de reagir.

Quem estaria por trás desta mão invisível, que nos poda constamente? Isso é assunto para outras divagações.

sexta-feira, julho 21, 2006

Pocotó, pocotó!!

O termo "pocotó", oriundo da música "Eguinha Pocotó" de Mc Serginho, que foi um desses típicos sucessos de verão, transformou-se em sinônimo da mediocridade brasileira após a publicação do livro "Brasileiros Pocotó" de Luciano Pires. A cena de uma dançarina (ou dançarino) drag-queen, de codinome Lacráia, dançando em movimentos nem um pouco graciosos uma música cujo insistente refrão diz "pocotó, pocotó, pocotó! Minha eguinha pocotó!" parece algo deveras dantesco para a erudição dos pudicos intelectuais brasileiros.

O pocotó (mediocridade) nacional é contantemente citado pelos opinadores de plantão, que fazem questão de enfatizar o qual errado é rumo das coisas no Brasil, dando a impressão que neste país tudo caminha para a alienação e para a submissão. Não os critico por isso, estão fazendo seu papel de incentivar a disseminação da erudição e combater a acomodação dos brasileiros diante de seus crônicos problemas, talvez pequem apenas na análise da questão.

Não creio que a música "Eguinha Pocotó" em si, deva carregar este estígma de grande estandarte da mediocridade nacional, pois ao ouví-la pode-se notar que nada mais é que uma música infantil, dessas que se pode cantar tranquilamente para as crianças. Acredito que esta música cumpriu bem o papel para o qual se prestou, que é o de música para animar festas e dançar. Até onde se consta, as pessoas vão para festas com o intúito de se divertir, não para filosofar ou discutir os problemas que os aflige, nada diferente do que ocorre no resto do mundo.

A mediocridade nacional, que não chega a ser muito diferente da encontrada em outros países, não tem causas tão simplistas, que possam ser exemplificadas com músicas, ela foi construída históricamente, algo demasiado complexo para se explicar em uma simples coluna de jornal ou blog. A única coisa que defendo para o caso é que cada um busque melhorar individualmente, tentando superar-se a cada dia, que de resto as coisas acontecem por si só. Isso não necessariamente inclui deixar de divertir-se com músicas pocotóticas e performances lacraianas.

quarta-feira, julho 19, 2006

Adhocquismo

Adhocquismos é um neologismo derivado do termo Ad Hoc, mais especificamente do conceito de “hipóteses ad hoc”. Trata-se de hipóteses criadas para dar uma explicação para fatos que pareçam refutar uma teoria a qual se defende. Este é um conceito utilizado bastante pelos céticos para qualificar a tentativa dos pseudo-cientistas de explicar o porque de um determinado fenômeno descritos por eles não ocorrer em uma situação de monitoramento onde possa ser de fato checada sua veracidade.

Um exemplo de hipóteses ad hoc alcançando o cúmulo do ridículo com o parafísico Helmut Schmidt, que colocou baratas numa caixa onde poderiam dar choques elétricos em si mesmas. Poder-se-ia assumir que as baratas não gostam de levar choques e os aplicariam em si mesmas a uma taxa compatível com o acaso ou menos, se pudessem aprender com a experiência. As baratas aplicaram-se mais choques elétricos do que o previsto pelo acaso. Schmidt concluiu que "como odiava baratas, talvez fosse a sua psicocinese que tivesse influenciado o randomizador!" (link para fonte)

Contudo, o adhocquismo ao qual me refiro e que motivou a usar este neologismo não está exatamente no campo das pseudo-ciências, mas sim no campo das teorias conspiratórias, mais precisamente no campo das análises político-sociais. Como eu já expliquei no texto “A dinâmica social e os temores”, determinados grupos que ostentam visões políticas antagônicas, e temem um jogo de forças conspiratório atribuído ao lado contrário.

Para corroborar com o que alardeiam, os defensores das diferentes visões políticas citam notícias isoladas, e associam-na com uma grande rede de eventos, fazendo com que pareça que aquilo faz parte da trama que corre tacitamente.

Apesar de ser absolutamente cético quanto à este tipo de conspiração, que reúne elementos de fenomenologia e metafísica, estas são de difícil refutação, pois as hipóteses ad hoc pipocam de todos os lados, e é inútil tentar convencer seus defensores do contrário. Ademais, nem mesmo vale a pena, pois seria uma verdadeira labuta de Sísifo, resta-me apenas acompanhar as pendengas observando com curiosidade as explanações de ambos os lados, e observar a dinâmica social fazendo a sua parte.

Ponto e contra-ponto (série Constatações)

Isso que vou dizer parece coisa de almanaque, mas cada vez mais me parecem premissas verdadeiras:
-Pessoas com grandes qualidades sempre têm grandes defeitos;
-Quanto maior a bebedeira, maior será a ressaca;
-Ter grande prazer em algo, significa ter grande dor em perdê-lo.

Mas, para não parecer pessimista, pode-se inverter a ordem e parecer otimista:

-Pessoas com grandes defeitos sempre têm grandes qualidades;
-Quanto maior a ressaca, maior foi a bebedeira;
-Quanto pior a dor de perder algo, maior foi o prazer em tê-lo.

Frases idiotas, conclusões pertinentes...

terça-feira, julho 18, 2006

A difícil arte de opinar

Há assuntos sobre os quais eu não tenho uma opinião formada, e não vislumbro ter a curto prazo. Dois exemplos são a questão do aborto e a questão das cotas para negros nas universidades públicas. Sempre evito este tipo de debate pelo simples fato de que não consigo decidir sobre o qual seria a melhor posição. Isso talvez um dos males (ou não) do relativismo, vc não se apoia em dogmas ou valores morais absolutos para referenciar-se.

A questão do aborto, por exemplo, tendo a ser contrário à prática, mas isso é uma posição meramente emotiva, sem nenhuma base racionalista para ampará-la, simplesmente me compadeço com a perda da vida do feto, a impossibilidade deste ter a chance de ter uma história. Contudo, não desmeresso os argumentos em favor do aborto, como a liberdade feminina sobre o próprio corpo, como a questão dos problemas gerados por filhos indesejados e rejeitados, tanto para a mulher quanto para a sociedade, entre uma série de argumentos pertinetes. Por isso prefiro não defender nenhuma posição publicamente, e acho que por hora eu tenho o direito de abster-me.

A questão das cotas para negros nas universidades públicas é uma faca de dois gumes. O Estado propõe uma alternativa para diminuir a assimetria entre pessoas de grupos diferentes, cuja existência é de conhecimento de todos, algo realmente bem intencionado. O problema é que para isso fere-se o princípio da isonomia institucional, ou seja, trata grupos diferentes de forma diferente. O problema nesta questão é que, apesar das desigualdades sociais entre brancos e negros serem algo pra lá de evidente, ela não é institucional, mas sim cultural e histórica, e tentar corrigir isso criando uma segregação institucional oficial gera um conflito no sistema, mesmo que a intenção seja boa. Assim como no caso do aborto, tenho uma tendência, que é a de ser favorável às cotas para afro-descendentes, mas esta é uma visão baseada em algum idealismo, não é de cunho totalmente racional.

Assim ocorre em uma série de outros assuntos, mas esquivo-me prudentemente, pois não acho que devamos ser senhores das verdades e dos ditames, só procuro sempre exaltar a solução encontrada por denominadores comuns, pois só assim a sociedade evolui.

Franz Kafka

Confesso que não me interesso muito pela leitura de obras de ficção, mesmo aquelas de cunho filosófico, talvez seja algum tipo de preguiça de minha parte, mas de tanto ouvir falar em Kafka acabei lendo A Metamorfose, e fiquei encantado com a criatividade e a sensibilidade do autor, ao tratar de uma forma tão humana uma história tão sui generis.

Depois li Um Artista da Fome, e percebi a mesma sensibilidade e notei um paralelo entre as duas obras. Tanto uma obra quanto outra tratam da indiferença das pessoas em relação sentimentos humanos e o egoísmo que resulta em relações baseadas em mero interesse. Tanto Gregor Samsa (protagonista de "A metamorfose") quanto o artista da fome (que não foi tratado pelo nome em nenhum momento do conto) são verdadeiros gritos contra a hipocrisia da sociedade, que defende valores morais ao mesmo tempo que desloca de sua vivência aqueles que não lhe trazem nenhuma forma de lucro. A agonizante saga dos dois personagens envolve conflitos existenciais, desilusões e situações absurdas, dificil não se sensibilizar diante do quadro.

Ao final das duas histórias, após a morte dos dois personagens, tudo volta ao normal, nada muda, as pessoas buscam outras pessoas (ou coisas) para explorarem e obter lucro, na mesma hipocrisia e indiferença de sempre.

Kafka não publicou nenhum texto em vida, dizem que confiou os textos a um amigo, pedindo a este que os destruisse caso ele viesse a morrer, no sanatório onde estava internado para tratar-se de uma grave tuberculose. Kafka morreu (jovem, aos 40 anos), e o amigo acabou decidindo por publicar as obras. Neste caso, temos de louvar a traição do amigo, pois assim pudemos ter acesso a um belo legado literário.

domingo, julho 16, 2006

O politicamente correto (série Constatações)

Confesso que acho algo um tanto cômico ver pessoas se queixando da tal "ditadura do politicamente correto". É realmente muito engraçado ver gente fula da vida porque não pode falar mal dos gays, negros, índios e outros grupos porque será certamente rechassado pela "ditadura do politicamente correto".

Ora, parece ser prática comum de algumas pessoas acusar de "ditatorial" e "opressor" o paradigma que lhe inibe de falar besteira e propagar bobagens. Estes são certamente os primeiros a se ofenderem com as críticas alheias, típico exemplo do "só é bom o que me convém".

Obviamente, a mistura de "politicamente correto" com ranhetice é um pé-no-saco, mas não devemos atribuir à primeira os problemas causados pela segunda.

A dinâmica social e os temores.

Há muito alarde sobre um eventual processo de degeneração da sociedade, o qual estaria em pleno andamento. A ótica desta degeneração social pode variar das questões morais e religiosas às questões éticas e políticas, seja como for, há um grande temor cercando muitas pessoas.

Entre as pessoas rotuladas como reacionárias ou conservadoras, há um grande temor no que se refere à destruição dos valores religiosos, sobre os quais baseiam-se suas referências sociais. Assuntos como casamento entre homossexuais, aborto e até mesmo algumas questões sociais podem soar como um sinal da ameaça que paira sobre as instituições que consideram legitimamente hegemônicas e necessariamente imutáveis, como a religião, a família e a propriedade, sem as quais a sociedade pode caminhar para o caos e para a selvageria. Para este grupo, há um grande temor no que se refere à disseminação das ideologias de esquerda, sendo esta a grande ameaça que paira sobre os valores acima citados. Muitos acreditam que ainda hoje o comunismo se propaga tacitamente, através de uma estratégia gramsciana (de Antonio Gramsci) de destruição dos valores que sustentam o sistema capitalista (vide Olavo de Carvalho).

Por outro lado, temos a visão alarmista das esquerdas. Neste caso, o temor esta na alienação geral provocada pela dominância de um arquétipo capitalista, onde as relações comerciais e o consumismo se sobrepõe a valores como a liberdade e a felicidade, que estariam atreladas à rigidez soberba do sistema. Dizem os esquerdistas que os meios de propagação do arquétipo estão nas mãos da elite capitalista, que tende sempre a reproduzi-lo com a intenção de perpetuar-se, isso resultaria em alienação e apatia diante do crescimento de um sistema serviu de exploração do ser humano em pró da supremacia de um grupo.

Diferentes fatos podem repercutir de forma a aumentar o temor em relação a esta degeneração da sociedade. A questão do casamento gay já citada acima seria, para os conservadores, um sinal da estratégia gramsciana de destruição dos valores burgueses em pleno andamento. A fusão de grandes grupos econômicos e manobras que indicam formação de oligopólios são vistos de forma temerária pelos partidários da esquerda, que vem nisso uma aglutinação de poder pela elite capitalista.

Contudo, as pessoas sustentam seu ideal de sociedade e uma visão unilateral desta, quando certos elemento parecem tomar uma dinâmica diferente daquela que seria a ideal na visão idiossincrática do indivíduo, já desperta neste um temor quanto aos rumos que a sociedade tomará.

A sociedade é dinâmica, e vai tomando forma e desenvolvendo-se no sentido de harmonizar os conflitos de interesse, e isso, deve ser visto como algo importante para a evolução desta. Adam Smith acreditava candidamente que havia uma “harmonia de interesses” que conduzia a economia ao equilíbrio, fazendo com que o mercado se auto regulasse, contudo ele ignorou o fato de que os interesses não tendem a serem tão harmônicos assim, quase sempre resultando em assimetrias.

A dinâmica social sempre tende a encontrar remédio para os próprios males, mesmo que estes sejam amargos. Um exemplo do que digo são as revoluções que ocorreram durante a história, apesar de quase sempre (ou sempre) terem sido motivadas por questões econômicas, estas sempre vieram para tentar corrigir assimetrias na sociedade.

O tão alardeado temor pela degeneração da sociedade não passa da dinâmica social atuando para corrigir assimetrias e estabilizar o conflito de interesses, através de um equilíbrio entre ponto e contra-ponto. Ideologias surgem e desaparecem, sua existência, contudo, é importante para a dinâmica social, pois exercem esse papel de contra-balancear as assimetrias.

Não caminhamos para nenhuma forma de degeneração, pelo contrário, nossa sociedade está em pleno processo de evolução. Resta-nos a dúvida de qual será o ápice desta evolução, se esta ocorrer, é claro, pois a dinâmica não nos leva à objetivos, apenas à mudanças.

sexta-feira, julho 14, 2006

Deus e sua (in)existência

Ao longo da história muitos sábios pensaram a respeito das evidências da existência divina. Inicialmente, a própria natureza seria uma evidência precisa da existência divina, devido ao pensamento baseado na relação causa e efeito. Aparentemente imaginava-se que tão complexo sistema (natureza) só poderia ter sido criado por uma inteligência superior. Contudo, foi com a institucionalização da fé, sobretudo com o surgimento da igreja católica, foi que este assunto ganhou ares mais racionalistas.

Santo Anselmo, no século XII, lançou o que seria o primeiro argumento racional a respeito da existência de deus, o argumento ontológico. Mais tarde, São Tomas de Aquino lançou sua Suma Teológica, onde abordava a questão da racionalização da questão sobre a existência de deus nas chamadas Cinco Vias. No século XVI, René Descartes lançou o argumento Cartesiano para a existência de deus. Por muito tempo atribuiu-se a estes argumentos o status de prova da existência divina.

Estes, contudo, são argumentos elaborados através de uma proposição a priori, ou seja, algo do qual não se pode ter a comprovação empírica (ou a posteriori), restringindo-se a um argumento metafísico, ou mesmo à uma abstração da realidade oriunda das limitações da linguagem (assim como os paradoxos). O próprio Kant (Sec. XVIII) tratou de refutar o argumento ontológico de Sto. Anselmo, enfatizando o caráter apriorístico deste.

Há, ainda hoje, quem insista em dizer que os argumentos acima citados são válidos como prova da existência de deus, pois as proposições a priori estariam de acordo com o caráter metafísico da essência divina. Contudo, a própria metafísica é capaz de aplicar peças nos mais afoitos. Usando das mesmas proposições a priori e da metafísica, o filósofo Sebastien Faure (França, sec. XIX) lançou as Doze Provas da Inexistência de Deus. A confrontação da proposições a priori a favor e contra a existência de deus resulta em... ZERO. Ficando a cargo da crença pessoal, a existência do ente divino.

Atualmente, quem quiser uma prova da existência divina, a qual realmente tenha valor espistemológico digno de aceitação geral, deve buscar fazer isto através do método científico. Mas isso é algo bastante difícil, pois esbarra em dois problemas básicos: o real conceito de deus, e a falseabilidade do conceito. Enquanto isso não for superado, falar em provas da existência divina não passa de falácia da brava.

quarta-feira, julho 12, 2006

Em busca das questões essenciais

Enviei o link deste blog à uma amiga para ela dar uma olhada, e ela, após ler o artigo Criando Deus de autoria de Lígia Amorese, disse que me enviaria um texto sobre este. Hoje, abri meu e-mail e o texto já estava lá. Depois de ler, achei bastante conveniente postá-lo aqui, ao ler pode-se entender o porquê. Segue:

Lí o texto de Lígia Amorese e não posso deixar de concordar com ela em quase tudo... apesar de ter um pensamento divergente na questão da existência de um ser supremo. Mas eu vejo Deus, não desta forma estabelecida pelas religiões. Talvez minha concepção de Deus seja também uma conclusão de quem andou através de tantas filosofias e religiões, desde as mais primitivas, tipo terreira de umbanda passando por espiritismo, chegando as filosofias orientais, os ensinamentos de Gourgeff, a Gnose, já estive na Rosacruz por 3 anos, fui Guardiã da Chama (outra Sociedade Secreta) dos Mestres da Fraternidade Branca, e depois desembestei totalmente para um lado bem fanático do protestantismo, quando queimei meus livros hereges numa santa fogueira, junto com os cd's da Nova Era e todos os demais mundanos, e entreguei minha alma a Jesus.

Durante mais 7 anos peregrinei por diversas religiões: (Adventista do 7 Dia, Igreja Quadrangular, Igreja Universal do Reino de Deus, Comunidade Evangélica de Porto alegre, esta jurava de pé junto que não era uma religião, que seus fiéis deveriam simplesmente seguir os ensinamentos de Jesus) mas ai daqueles que resolvessem interpretar os ensinamentos de Jesus da sua maneira, (claro, eram automaticamente descriminados pela santa maioria que seguia seus líderes). Minha literatura passou a ser o cânon Sagrado e alguns restritos livros recomendados pelos líderes de cada religião onde eu armava a barraca.

Mas meu senso crítico não havia morrido, apesar das tentativas de expulsão demoníaca que eu insistia em fazer... Para acalmar meu sentimento de culpa (pois eu sempre me sentia indigna de Deus, e esse é o massete de toda religião - te controlar pelo sentimento de culpa) voltei para minha religião de "nascença" o Catolicismo, só que desta vez para o movimento carismático. Posso dizer que foi uma peregrinação de 30 anos. Ufa! Já conseguia respirar um pouco mais... Pelo menos alí eu não me sentia tão vigiada! Mas daí prá libertação foi um pulo fácil e agora tento ser o mais livre possível na minha forma de pensar, até onde minha consciência do ser permite.

Bom Gerson, o que concluí deste rastreamento foi que a alma humana é igual em todos os lugares, em todas as religiões, em todos os setores, em meio a política, e em todos os campos da sociedade existe uma palavra ou um mandamento que ressoa e retumba desde os primórdios até hoje: impor a sua verdade, ter o controle nas mãos. E o ser humano se ressente demais com aquele q ousa pensar diferente de si mesmo.

Trabalhei 10 anos junto ao movimento sindical e alí também vestí a camiseta. O Sindicato tinha um lado político bem estabelecido: PT, CUT e mais alguns elementos xiitas... também cheguei a conclusão que é um padrão de controle exatamente seguindo os mesmos padrões religiosos. Apesar de concordar de que deva sempre existir o "Se ai governo, soi contra", prá tentar manter o equilíbrio na balança da evolução. Quanto a tendência de rotular: percebo que preciso me policiar permanentemente para não cair nesta tentação, como se fosse possível conhecer algo ou alguém olhando externamente. Ainda assim, acho que o padrão de hierarquia na evolução humana foi necessário e ainda se faz necessário, até talvez um dia alcançarmos o estágio de podermos raciocinar com mais lucidez e fazer escolhas melhores. Até agora este padrão sobre liderança tem se ancorado em crenças individuais. A crença do mais poderoso se torna uma lei estabelecida. Quanto a questão da crença de um ser supremo, cheguei a conclusão que só o céu que me cobre já é misterioso o suficiente prá mim. Penso: está alí, é maior que eu, não tenho controle sobre isso. Não tenho o poder de fazer chover ou parar a chuva. Mas quando invoco este mistério, sinto que meus átomos vibram melhor. Quando estou no silêncio, meus elementos entram em harmonia e me sinto mais feliz. Talvez hoje, crer em Deus assim desta forma me parece ser mais concreto. Creio no mistério de Cristo, mas isto já é outra história com suas próprias nuances.

Então Gerson, eu sinceramente não estudei o ceticismo a ponto de ter uma postura em relação a isso...mas preciso me aventurar. Pessoalmente acho mais difícil não crer do que crer (levando-se em consideração a relativa interpretação deste crer), falando até numa questão bem concreta do que vemos ao nosso redor, sem nem partir prô lado da metafísica, para mim me parece impossível não meditar no mistério que nos torna humanos, assim geneticamente formadinhos com toda essa sopa de elementos se comunicando entre si de maneira tão fantástica e misteriosa. Crer em Deus a meu ver é isso: admirar e procurar o que não entendo como uma criança que se aventura com alegria nos obstáculos mais absurdos, sem ao menos considerar o perigo, que certamente contém a resposta...

Rosani Seitenfus

À Rosani, meus agradecimentos por sua excelente contribuição. Apesar de sempre estarmos em busca de um porto seguro, é bom se ter a coragem de questionar o que se tem por certo, tanto na metafísica quanto no materialismo.