Há muito alarde sobre um eventual processo de degeneração da sociedade, o qual estaria em pleno andamento. A ótica desta degeneração social pode variar das questões morais e religiosas às questões éticas e políticas, seja como for, há um grande temor cercando muitas pessoas.
Entre as pessoas rotuladas como reacionárias ou conservadoras, há um grande temor no que se refere à destruição dos valores religiosos, sobre os quais baseiam-se suas referências sociais. Assuntos como casamento entre homossexuais, aborto e até mesmo algumas questões sociais podem soar como um sinal da ameaça que paira sobre as instituições que consideram legitimamente hegemônicas e necessariamente imutáveis, como a religião, a família e a propriedade, sem as quais a sociedade pode caminhar para o caos e para a selvageria. Para este grupo, há um grande temor no que se refere à disseminação das ideologias de esquerda, sendo esta a grande ameaça que paira sobre os valores acima citados. Muitos acreditam que ainda hoje o comunismo se propaga tacitamente, através de uma estratégia
gramsciana (de Antonio Gramsci) de destruição dos valores que sustentam o sistema capitalista (vide Olavo de Carvalho).
Por outro lado, temos a visão alarmista das esquerdas. Neste caso, o temor esta na alienação geral provocada pela dominância de um arquétipo capitalista, onde as relações comerciais e o consumismo se sobrepõe a valores como a liberdade e a felicidade, que estariam atreladas à rigidez soberba do sistema. Dizem os esquerdistas que os meios de propagação do arquétipo estão nas mãos da elite capitalista, que tende sempre a reproduzi-lo com a intenção de perpetuar-se, isso resultaria em alienação e apatia diante do crescimento de um sistema serviu de exploração do ser humano em pró da supremacia de um grupo.
Diferentes fatos podem repercutir de forma a aumentar o temor em relação a esta degeneração da sociedade. A questão do casamento
gay já citada acima seria, para os conservadores, um sinal da estratégia
gramsciana de destruição dos valores burgueses em pleno andamento. A fusão de grandes grupos econômicos e manobras que indicam formação de oligopólios são vistos de forma temerária pelos partidários da esquerda, que vem nisso uma aglutinação de poder pela elite capitalista.
Contudo, as pessoas sustentam seu ideal de sociedade e uma visão unilateral desta, quando certos elemento parecem tomar uma dinâmica diferente daquela que seria a ideal na visão idiossincrática do indivíduo, já desperta neste um temor quanto aos rumos que a sociedade tomará.
A sociedade é dinâmica, e vai tomando forma e desenvolvendo-se no sentido de harmonizar os conflitos de interesse, e isso, deve ser visto como algo importante para a evolução desta. Adam Smith acreditava candidamente que havia uma “harmonia de interesses” que conduzia a economia ao equilíbrio, fazendo com que o mercado se auto regulasse, contudo ele ignorou o fato de que os interesses não tendem a serem tão harmônicos assim, quase sempre resultando em assimetrias.
A dinâmica social sempre tende a encontrar remédio para os próprios males, mesmo que estes sejam amargos. Um exemplo do que digo são as revoluções que ocorreram durante a história, apesar de quase sempre (ou sempre) terem sido motivadas por questões econômicas, estas sempre vieram para tentar corrigir assimetrias na sociedade.
O tão alardeado temor pela degeneração da sociedade não passa da dinâmica social atuando para corrigir assimetrias e estabilizar o conflito de interesses, através de um equilíbrio entre ponto e contra-ponto. Ideologias surgem e desaparecem, sua existência, contudo, é importante para a dinâmica social, pois exercem esse papel de contra-balancear as assimetrias.
Não caminhamos para nenhuma forma de degeneração, pelo contrário, nossa sociedade está em pleno processo de evolução. Resta-nos a dúvida de qual será o ápice desta evolução, se esta ocorrer, é claro, pois a dinâmica não nos leva à objetivos, apenas à mudanças.